Muita coisa tem acontecido na minha vida, alíás, muitas já aconteceram, nunca tive uma vida ligth ou monótona nem mesmo fácil. Sempre fui intensa, desde menina, me lembro de ser uma menininha muito bonitinha de pretos cabelos lisos cortados em estilo Chanel.
Adorava brincar de bonecas, mas sempre em situações extremas. Na casa de meus avós maternos havia um tapete na varanda e eu levava minhas bonecas para lá e imaginava que ali era um navio e uma grande tempestade nos surpreendia, assim, como mãe zelosa, protegia minha prole, racionava os mantimentos, organizava o convés, cuidava dos feridos…Outras vezes subia na laje da mesma casa , dos mesmos avós e ali a aventura era de uma guerra, uma invasão, uma peste, mas, eu sempre sabia o que fazer, como cuidar do todos, como fazer a dor passar e acima de tudo como estar sempre alerta.
Eterna bandeirante! Minha terapeuta me falou isso inúmeras vezes!Adorável criatura! Sempre alerta, sempre com a guarda levantada, sempre em posição de defesa, ou será ataque? Será mesmo o ataque a melhor defesa? Ou algumas vezes se fazer de morto é mais inteligente e até mesmo mais eficiente? Afinal, quem pode com cachorro louco? Só saque a arma para matar… Só quando é matar ou morrer! Das outras vezes desvie, negocie se faça de morto, afie a faca e planeje cautelosamente o próximo passo… Mas, eu ainda não sabia nada disso então passei anos da minha vida, Sempre Alerta!!
O tempo passou, as brincadeiras mudaram, os riscos aumentaram, mas eu estava sempre alerta, com certeza isso me salvou inúmeras vezes.
Alerta, sempre fui muito cuidadosa, medida importante para quem é impetuosa, curiosa, vanguarda pura quase enlouquecida pelo sabor da vida… Então, sempre alerta!
Lanterna na mão iluminava meu caminho e de todos os demais que se aproximavam e os que não se aproximavam, mas sabia que estavam perdidos, eu atraia para minha rede de segurança… E assim, passei minha juventude de lanterna na mão, sempre alerta!
Mas, fui uma criança feliz, minhas brincadeiras de infância me preparam para o que viria pela frente… Muitas tempestades e guerras povoaram minha vida real.
Fui uma jovem, muito jovem, daquelas que deixam as mães de cabelos em pé, notem que sou de uma geração que abriu várias portas. Na verdade as portas que hoje meus filhos atravessam sem medo e vergonha foram abertas por algumas pessoas da minha geração e isso é claro tem seu preço…
Mas enfim, preço acertado vivi o que precisa viver aos 20 anos, conheci corpos jovens, bebi com os amigos, fiz festas em sítios, fiz muito trabalho de faculdade “na casa de Mariazinha”, corri alguns riscos é certo… Meu anjo da guarda forte e algumas vezes exausto me salvou mais de uma centena de vezes.
Mas enfim, fiz o que minha geração fazia naquele momento, ou o que algumas destemidas pessoas da minha geração faziam naquele momento. Abríamos as portas, quebrávamos as barreiras, enfrentávamos a hipocrisia, riamos dos mentirosos e resistíamos à ditadura, tanto a militar como a de costumes.
E assim, no meio de tudo isso, encontrei a pessoa que acreditei ser o “amor da minha vida” e me casei, tive três filhos maravilhosos e segui pela vida.
Muitas coisas aconteceram, muitos desafios, muitas tempestades, guerras, problemas e perdas, algumas foram perdas muito cruéis… Mas, mais uma vez estava eu vivendo o momento que a vida me impunha, com a dignidade e maturidade que acreditava ser necessária.
Sempre alerta! Lanterna na mão! Faça o que tiver que ser feito era meu lema… É verdade, que caí muitas vezes, me deprimi umas tantas, me enchi de esperança outras mais e me decepcionei, mas nunca deixei de lutar!
Lutei como só os arrogantes são capazes, enfrentei os problemas com a destemida prepotência única aos que se julgam os engenheiros de Deus.
Engenheiros de Deus, seres míticos capazes de consertar tudo, de torneiras pingando ao vício em crack, passando pelo problema mais comum; a cegueira emocional… E lá fui eu, de lanterna na mão. Sempre alerta. Eu e meu cinto de mil e uma utilidades…
E então o tempo foi passando, não deixei de lutar uma luta, mas deixei várias vezes de ver o por do sol, e não há nada que me emocione mais que o sol se pondo… Até ele, o rei, que tem um sistema todo com seu nome, dorme e descansa tranqüilo enquanto sua parceira a doce e sedutora lua brilha vestida de prata ! Hoje eu sei por que adoro a lua! Adoro essa coisa languida e doce que ela representa…
Enfim, com o passar dos anos, a vida enfim se impôs a mim mesma, consegui parar, olhar em volta, perceber meu corpo, sentir meu espírito, reconhecer meu cheiro. Foi então que um desejo louco de revisitar histórias passadas inundou minha alma. Intensa como sou, a história que me ocorreu foi uma das mais fortes para mim. E ao visitar este lugar deixei livre um grande vulcão. Como uma caixa de Pandora, que se abre sem aviso prévio, não tive nenhuma defesa e me entreguei a mais louca das aventuras…uma viagem pela minha própria e única história.
É claro, que impiedosa como sou, fiz perguntas que não se fazem, ouvi respostas que não queria algumas que nem concordo, mas que me fizeram mergulhar nas profundezas de meu ser. E fiz as mais loucas, cruéis e amorosas descobertas.
Descobri que o amor da minha vida, era apenas um amor, um amor forte o suficiente para gerar nossos filhos extremamente amados, mas era apenas um amor forte e verdadeiro, mas não era o amor da minha vida!
Descobri que dei a estes filhos amados o direito de tomar todo o espaço que queriam em minha vida. Adoro dividir a vida com eles, aliás, não existe ninguém que eu goste mais de compartilhar a existência. Mas, também adoro a solidão, o sucesso e os amigos da minha idade.
Descobri que ao tentar consertar tudo que estava errado, esqueci de dar manutenção a mim mesma e assim adoeci severamente de corpo e alma.
Descobri que por medo de não querer voltar deixei de ir a lugares desejados. Tolo engano! Sei muito bem onde quero estar, e sei também que é no movimento de ir e vir que sempre estaremos com quem amamos. Descobri quem decide o roteiro da minha vida sou eu.
E fiz então a mais importante descoberta. Descobri o grande amor da minha vida!
Eu! Eu sou o grande amor da minha vida!
Descobri que amo muito algumas poucas pessoas, mas não amo ninguém como a mim mesma!
E isso, faz toda a diferença! Deixei tantas coisas paradas no tempo, deixei tantos amigos sem ver revisitados, deixei tantas viagens sem ser feitas, tantos caminhos pela metade…
Descobri que sou uma ótima pessoa, mas que teria sido ainda melhor se não tivesse amado o próximo mais que a mim mesma.
“Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”. Esta é a mais importante lição da religião cristã da qual faço parte. Não vi em nenhum lugar “Amar ao próximo mais que a ti mesmo”. E acredito que Deus vive dentro de nós…
Hoje, posso tranquila e serena sair por aí… parar onde quiser…voltar para o início…revisitar boas histórias, passar horas jogando conversa fora numa mesa de bar na calçada…pois assim, me respeitando, realizando meus desejos e seguindo meu caminho, serei mais feliz e assim sendo serei um ser humano ainda melhor….para mim mesma e para os que compartilho a existência.
Dedico este post à Adriana Campos Cerqueira Leite e ela sabe o por que…
Cristina Morais












